Goiânia, 13 de maio de 2008

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Médicos burocratas

FLÁVIO PARANHOS

Outro dia ouvi da boca de um amigo o seguinte absurdo: “Demitimos aquele médico auditor porque ele glosava pouco”. Minha reação imediata foi avançar no pescoço dele e arrastar sua cara no asfalto até gastar o nariz. Contive-me. Respirei fundo. Então, devolvi: “Como você se sentiria se, ao final de um mês de seu trabalho, lhe cortassem 10%, 20% ou até 50% de seu salário?”. Ele sorriu maroto, com a superioridade de quem sabe que isso jamais lhe acontecerá, e retrucou: “Contratamos uma auditoria que nos apresentou uma estatística...”. Nem o deixei terminar, senão não seria capaz de conter minha fúria. Toda a raiva que os convênios e suas glosas criminosas causam seria descontada ali mesmo, no nariz de meu amigo.

Quem já foi roubado conhece a sensação. Você efetivamente trabalha, faz um esforço para que seus seis anos de medicina, três de residência e dois de subespecialização resultem no maior benefício possível a seu paciente, e, dois a seis meses depois (depende do convênio), vem a fatura: “procedimentos tais – glosados”. Justificativa? “Desculpe, foi erro do sistema”. Ou: “O formulário tal, via tal, subseção tal, está com um dos números de um dos códigos meio apagado”. Ou ainda: justificativa nenhuma. Não sabem o motivo, vão ver, e depois te dizem. Com essa esperteza, ganham mais uns dois meses (além dos dois a seis) pra pagar. Isso se a vítima estiver atenta, caso contrário fica o pago pelo não-pago. Criminoso.

Já ouvi de dirigentes de convênios toda sorte de justificativas. “Médico é tudo safado”, foi uma delas, que ouvi da boca de um... médico. Dá vontade de botar um espelho na frente do cara e pedir pra repetir. “Glosamos por estatística”, já ouvi também (é o que a empresa de auditoria está prometendo fazer pro meu amigo). Ou seja, dane-se a justificativa científica (cien... o quê?), o negócio é matemática pura.

Papéis, papéis, papéis. Pelo menos metade de nossa vida profissional se resume a isso. Vivemos preenchendo papéis. Quando você pensa que não tem como ficar pior, mudam tudo, inventam mais papéis, mais códigos, mais justificativas. E continuam glosando criminosamente. Inventam mil regras e labirintos pra driblar os “safados” (não que eles não existam, mas quero crer que são a minoria). Só que não adianta. Todo safado é esperto, vai achar um jeito de continuar fazendo safadeza. E, com isso, a grande maioria de não-safados têm sua vida infernizada e cada vez mais burocratizada. Pior pra quem? Pro paciente, que sofre pra conseguir ter seus procedimentos autorizados.

Os exemplos abundam. Vou citar só dois, bem estúpidos. Um grande convênio começou a implicar com descrições iguais de cirurgia (a mesma cirurgia, de catarata, por exemplo). Esqueceram de explicar pros gênios que, quanto mais igual uma à outra, melhor. A técnica é a mesma. Se sair da rotina é porque houve complicação que, em bons serviços, espera-se que seja rara. Outro exemplo: há algum tempo exigem que o laudo de exame acompanhe a guia para cobrança (pra atestar que foi feito). Acontece que o safado, se quiser, inventa um laudo. Isso sem falar no sigilo quebrado. E dá-lhe toneladas de papéis...