| Médicos burocratas FLÁVIO PARANHOS
Outro dia ouvi da boca de um amigo o seguinte absurdo:
Demitimos aquele médico auditor porque ele glosava pouco. Minha reação
imediata foi avançar no pescoço dele e arrastar sua cara no asfalto até gastar o nariz.
Contive-me. Respirei fundo. Então, devolvi: Como você se sentiria se, ao final de
um mês de seu trabalho, lhe cortassem 10%, 20% ou até 50% de seu salário?. Ele
sorriu maroto, com a superioridade de quem sabe que isso jamais lhe acontecerá, e
retrucou: Contratamos uma auditoria que nos apresentou uma estatística....
Nem o deixei terminar, senão não seria capaz de conter minha fúria. Toda a raiva que os
convênios e suas glosas criminosas causam seria descontada ali mesmo, no nariz de meu
amigo.
Quem já foi roubado conhece a sensação. Você efetivamente
trabalha, faz um esforço para que seus seis anos de medicina, três de residência e dois
de subespecialização resultem no maior benefício possível a seu paciente, e, dois a
seis meses depois (depende do convênio), vem a fatura: procedimentos tais
glosados. Justificativa? Desculpe, foi erro do sistema. Ou: O
formulário tal, via tal, subseção tal, está com um dos números de um dos códigos
meio apagado. Ou ainda: justificativa nenhuma. Não sabem o motivo, vão ver, e
depois te dizem. Com essa esperteza, ganham mais uns dois meses (além dos dois a seis)
pra pagar. Isso se a vítima estiver atenta, caso contrário fica o pago pelo não-pago.
Criminoso.
Já ouvi de dirigentes de convênios toda sorte de
justificativas. Médico é tudo safado, foi uma delas, que ouvi da boca de
um... médico. Dá vontade de botar um espelho na frente do cara e pedir pra repetir.
Glosamos por estatística, já ouvi também (é o que a empresa de auditoria
está prometendo fazer pro meu amigo). Ou seja, dane-se a justificativa científica
(cien... o quê?), o negócio é matemática pura.
Papéis, papéis, papéis. Pelo menos metade de nossa vida
profissional se resume a isso. Vivemos preenchendo papéis. Quando você pensa que não
tem como ficar pior, mudam tudo, inventam mais papéis, mais códigos, mais
justificativas. E continuam glosando criminosamente. Inventam mil regras e labirintos pra
driblar os safados (não que eles não existam, mas quero crer que são a
minoria). Só que não adianta. Todo safado é esperto, vai achar um jeito de continuar
fazendo safadeza. E, com isso, a grande maioria de não-safados têm sua vida infernizada
e cada vez mais burocratizada. Pior pra quem? Pro paciente, que sofre pra conseguir ter
seus procedimentos autorizados.
Os exemplos abundam. Vou citar só dois, bem estúpidos. Um
grande convênio começou a implicar com descrições iguais de cirurgia (a mesma
cirurgia, de catarata, por exemplo). Esqueceram de explicar pros gênios que, quanto mais
igual uma à outra, melhor. A técnica é a mesma. Se sair da rotina é porque houve
complicação que, em bons serviços, espera-se que seja rara. Outro exemplo: há algum
tempo exigem que o laudo de exame acompanhe a guia para cobrança (pra atestar que foi
feito). Acontece que o safado, se quiser, inventa um laudo. Isso sem falar no sigilo
quebrado. E dá-lhe toneladas de papéis... |