 13 de maio: o que comemorar?
No dia 13 de Maio, temos a obrigação de analisar de
forma crítica os 120 anos da abolição da escravatura no Brasil. São 120
anos em que convivemos com a ideologia de que no Brasil houve a libertação
do povo negro e aboliu-se o trabalho escravo. Nós dos movimentos organizados, estamos
preocupados com a realidade da maior parte das populações negras. Questões visíveis
como a cultura do embranquecimento têm impossibilitado que muitos negros tenham uma
visão positiva de si e têm gerado baixa auto-estima, não permitindo que vejam ou
enfrentem o problema dos povos negros.
Domingos Barbosa
Outro problema é a relação discriminatória no mercado de
trabalho: é sabido que a riqueza material, construções de vários prédios e igrejas,
hoje patrimônios históricos, provém do trabalho escravo. Mas a contradição é
justamente que a população negra vive à margem da economia. Reclamamos a necessidade de
uma distribuição que favoreça a todos, inclusive ao povo negro. Embora os autores de
livros didáticos insistam em omitir, sabemos que depois da tal abolição, o
povo negro não foi indenizado financeiramente pelos mais de 300 anos de escravidão, não
recebeu casas para morar, não recebeu terras para viver e educar seus filhos com
dignidade. O povo negro era e por muito tempo continuou estrangeiro (expatriado). Um crime
étnico. É nesse aspecto que perguntamos: 120 anos da abolição o que comemorar?
Não podemos negar que há iniciativas importantes na luta
pela igualdade de oportunidades, mas sabemos que ainda falta muito a ser feito e exigido
do poder público. Temos de incentivar a organização dos movimentos negros para que
possamos dar novos rumos à história deste povo. Ações afirmativas, políticas
públicas, incentivo à cultura afrodescendente, fiscalização do ensino da história do
povo negro nos ensinos fundamental e médio são necessárias para mudarmos o rumo dessa
história de negação e de segregação étnico racial. A política de cotas em
universidade para estudantes negros não pode ser simples ação paliativa do poder
público; tem de ser uma forma de reparação histórica no sentido de criar oportunidades
no mercado de trabalho, mas, sobretudo, de valorização sociocultural do povo negro,
incluindo remuneração igual para todos, condizente com a habilitação.
A política de cotas não pode ser um simples benefício ou
apenas uma oportunidade para o estudo, mas tem de se estender a todos os níveis das
relações sociais. É dever humano e moral do povo negro consciente desejar reparar nossa
história. Somos capazes e, por isso, não vamos desistir nunca.
Domingos Barbosa é
filósofo, professor da UCG e membro da Pastoral Afro.
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