Goiânia, 13 de maio de 2008

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13 de maio: o que comemorar?

No dia 13 de Maio, temos a obrigação de analisar de forma crítica os 120 anos da “abolição” da escravatura no Brasil. São 120 anos em que convivemos com a ideologia de que no Brasil houve a “libertação” do povo negro e aboliu-se o trabalho escravo. Nós dos movimentos organizados, estamos preocupados com a realidade da maior parte das populações negras. Questões visíveis como a cultura do embranquecimento têm impossibilitado que muitos negros tenham uma visão positiva de si e têm gerado baixa auto-estima, não permitindo que vejam ou enfrentem o problema dos povos negros.

Domingos Barbosa

Outro problema é a relação discriminatória no mercado de trabalho: é sabido que a riqueza material, construções de vários prédios e igrejas, hoje patrimônios históricos, provém do trabalho escravo. Mas a contradição é justamente que a população negra vive à margem da economia. Reclamamos a necessidade de uma distribuição que favoreça a todos, inclusive ao povo negro. Embora os autores de livros didáticos insistam em omitir, sabemos que depois da tal “abolição”, o povo negro não foi indenizado financeiramente pelos mais de 300 anos de escravidão, não recebeu casas para morar, não recebeu terras para viver e educar seus filhos com dignidade. O povo negro era e por muito tempo continuou estrangeiro (expatriado). Um crime étnico. É nesse aspecto que perguntamos: 120 anos da abolição – o que comemorar?

Não podemos negar que há iniciativas importantes na luta pela igualdade de oportunidades, mas sabemos que ainda falta muito a ser feito e exigido do poder público. Temos de incentivar a organização dos movimentos negros para que possamos dar novos rumos à história deste povo. Ações afirmativas, políticas públicas, incentivo à cultura afrodescendente, fiscalização do ensino da história do povo negro nos ensinos fundamental e médio são necessárias para mudarmos o rumo dessa história de negação e de segregação étnico racial. A política de cotas em universidade para estudantes negros não pode ser simples ação paliativa do poder público; tem de ser uma forma de reparação histórica no sentido de criar oportunidades no mercado de trabalho, mas, sobretudo, de valorização sociocultural do povo negro, incluindo remuneração igual para todos, condizente com a habilitação.

A política de cotas não pode ser um simples benefício ou apenas uma oportunidade para o estudo, mas tem de se estender a todos os níveis das relações sociais. É dever humano e moral do povo negro consciente desejar reparar nossa história. Somos capazes e, por isso, não vamos desistir nunca.

Domingos Barbosa é filósofo, professor da UCG e membro da Pastoral Afro.

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