Goiânia, 13 de maio de 2008

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LITERATURA
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O Povo Brasileiro – Darcy Ribeiro (Cia das Letras)
“Fala da formação dos brasileiros. Conseguiram difundir a imagem de um povo pacífico, mas sempre tivemos uma população sanguinária, desde o extermínio dos índios.”
Lucia Bertazzo – Designer

Paula de Parma

Enrique Vila-Matas: em Paris Não Tem Fim, autor espanhol constrói o “romance de deformação”

Quando Paris acaba

Lucia Bertazzo designer

Paris não tem fim traz a prosa
alusiva do espanhol Enrique Vila-Matas
e, por vias genialmente tortas, faz um
glorioso elogio ao ofício de escritor

André de Leones
Especial para O POPULAR

Há livros que, em tese, são escritos para todo tipo de leitor, e há livros que são escritos para (ou melhor apreciados por) outros escritores. Paris Não Tem Fim é um desses livros de escritores, para escritores e sobre escritores. Isto, entretanto, não o torna hermético ou menos envolvente, divertido e espirituoso. Afinal de contas, um romance (trata-se mesmo de um romance?) que começa com um concurso de sósias do escritor Ernest Hemingway pode ser qualquer coisa, menos chato, pedante ou difícil.

O protagonista e narrador de Paris Não Tem Fim é um escritor espanhol que, em uma conferência de três dias sobre “o tema geral da ironia”, relembra os dias de sua juventude que passou em Paris, alugando uma água-furtada de ninguém menos que Marguerite Duras, labutando na escrita de seu primeiro romance e driblando o pai, que só queria que ele desistisse dessa “bobagem” de se tornar escritor, retornasse a Barcelona e terminasse o curso de Direito.

O autor, o espanhol Enrique Vila-Matas, é um escritor de, para e sobre escritores. Não por acaso, seus romances são repletos de citações que, um pouco à maneira de Borges, nem sempre são confiáveis. Aliás, confundi-lo com o narrador de Paris Não Tem Fim é muito fácil: o primeiro romance de Vila-Matas, a exemplo da estréia literária de seu personagem, também se intitula A Assassina Ilustrada. E é assim, brincando com a própria biografia e com a biografia de inúmeros outros escritores, que o autor espanhol constrói aquilo que, na orelha do volume, Cassiano Elek Machado chama, com muita propriedade, de “romance de deformação”.

Tanto quanto a de Marguerite Duras, a figura de Ernest Hemingway permeia boa parte das páginas de Paris Não Tem Fim. Usando, às vezes, o clássico Paris É Uma Festa como contraponto, Vila-Matas narra, com toda a ironia que lhe é própria, os anos de “deformação” de um jovem escritor. Se Hemingway escreveu que, em Paris, fora “muito pobre e muito feliz”, Vila-Matas (ou, melhor dizendo, o narrador-protagonista) entrega logo de cara que, em Paris, foi “muito pobre e muito infeliz”.

Em uma das mais agudas passagens do livro, lemos sobre o desespero do autor de O Velho e o Mar em seus anos de esterilidade criativa e sobre como isso acabou por levá-lo ao suicídio. Assim, alternando passagens extremamente engraçadas com trechos viscosos de um desespero lancinante, Vila-Matas esmiúça o parimento de um autor, talvez ele mesmo, talvez não, e constrói um romance poderoso.

Como não poderia deixar de ser, o próprio desespero é ridicularizado aqui e ali. Em um dos melhores capítulos do romance (se é que podemos chamá-lo assim), diz o narrador: “Eu achava muito elegante viver no desespero. Acreditei nisso ao longo desses dois anos que passei em Paris, e na realidade por quase toda a minha vida, vivi nesse erro até agosto deste ano, que foi quando cambaleou e caiu definitivamente essa íntima crença na elegância do desespero. Quando ela caiu, foram caindo pouco depois, como um castelo de cartas, outras crenças menos pitorescas. Como, por exemplo, a de pensar que a magreza é essencial para ser intelectual e que os gordos – à medida que eu engordava, com grande complexo de culpa, ia pensando cada vez mais – não são poéticos nem podem ser inteligentes” (páginas 71-72).

Ciente de que “temos toda a eternidade para nos desesperar”, o narrador de Paris Não Tem Fim acaba proferindo, por meio de sua conferência sobre a ironia, um tremendo elogio do ofício de escritor. Por se tratar de um ofício torto por natureza, é natural que tal elogio apareça assim, na forma de um livro difícil, talvez impossível, de ser rotulado. Seja como for, ao final nos deparamos com o “conselho criminoso” (e, por isso mesmo, glorioso) de Marguerite Duras: “Você escreva, não faça outra coisa na vida”. Amém.

André de Leones é escritor, autor do romance Hoje Está Um Dia Morto (Record). Mantém o blog http://blog.andredeleones.com.

LIVRO:
¤ Paris Não Tem Fim
¤ Autor: Enrique Vila-Matas
¤ Páginas: 248
¤ Preço: 45 reais
¤ Editora: Cosac Naify


CURTAS

NOVIDADES
Livros falam da arte de escrever
Você sabe escrever um livro? Se não, ainda há tempo de aprender. Essa é a idéia vendida por dois livros recentes que têm quase o mesmo nome. A Oficina do Escritor – Sobre Ler, Escrever e Publicar (Ateliê Editorial), de Nelson Oliveira, dá dicas para estreantes na área. Entre as recomendações estão as de organizar um grupo de estudos, fundar uma microeditora, participar dos concursos literários e conquistar a simpatia de um autor veterano. A Editora Martins Fontes lançou obra semelhante. Escrita pelo norte-americano Stephen Koch, Oficina de Escritores – Um Manual para a Arte da Ficção se propõe a ser um apanhado de orientações sobre a melhor forma de dar vida às personagens, com a necessidade de, muitas vezes, reescrever o que já foi criado.

SANDMAN
Quadrinista do herói virá ao Brasil
O quadrinista de uma das criações mais atormentadas, complexas e instigantes das HQs das últimas décadas vai participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que será realizada entre 2 e 6 de julho na cidade histórica fluminense. O autor inglês Neil Gaiman confirmou ontem sua presença e deve ser uma das maiores estrelas entre os convidados internacionais da edição deste ano do evento. Além de seu trabalho nos gibis, Gaiman tem se destacado no cinema. Ele é co-roteirista dos filmes Beowulf e Stardust. No Brasil, as aventuras de Sandman, que foi inspirado no personagem Morfeu, o deus do sono, são publicadas pela Editora Conrad.

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